A ingenuidade é uma daquelas fatalidades da vida de que todos nos devemos libertar o mais rapidamente possível, a inocência, pelo contrário, é uma qualidade rara e perene, os poucos que a têm nunca a vão perder, mesmo que amargurem e se tornem cínicos, pois como disse Oscar Wilde: "O cinismo é o desespero dos românticos" e o romantismo é assim uma espécie de último bastião da inocência (o romantismo como corrente estética, entenda-se).
Nada que exprima isto melhor do que aquele extraordinário excerto de diálogo do Fala com Ela do Almódovar em que Marco (Darío Grandinetti) chega a casa de Benigno (Javier Cámera) e quando está a subir as escadas aparece-lhe Chuz Lampreave por entre as cortinas dos seus aposentos de porteira (qual Barbara Stanwick - ora toma lá a cultura cinéfila americana) e lhe pergunta como está Benigno, ao que Marco responde que não se preocupe, que está inocente. E Chuz sai-se com esta tirada: "Eu sei que está inocente. Mas inocente de quê?"

Sem comentários:
Enviar um comentário